Na revista Sábado da semana que passou vinha um artigo interessantíssimo, escrito por Teresa Vilela, sobre a cobertura que jornais nacionais e internacionais deram aos grandes eventos dos finais do Séc. XIX até meados do Séc. XX: da matança de Jack, o Estripador ao naufrágio do Titanic, do Ultimato Inglês ao Regicídio, da apresentação do telefone à Rainha Vitória ao Desembarque na Normandia.
Por razões várias, chamou-me a atenção este último aspecto: saber o que se dizia sobre o Dia D.
A autora da peça começa por chamar a atenção – e muito bem – para o facto do desembarque ter sido adiado de 5 para 6 de Junho devido às condições atmosféricas no Canal da Mancha. A má visibilidade tornava os vôos mais difíceis e a acção das tropas Aerotransportadas incipiente.
Logo a seguir escreve esta pérola “(…) o Dia D, chamado assim pela sua importância para o desenlace da II Guerra Mundial (…)”.
Já que a senhora se deu ao trabalho de fazer uma pesquisa aprofundada sobre o que se dizia na altura, poderia também pesquisar sobre a verdadeira razão do mito do Dia D.
Ao contrário de tudo quanto nos ensinaram, o Dia D não se chama assim porque foi mais ou menos importante do que eventos como a Batalha de El-Alamein ou a Batalha das Ardenas.
O secretismo da missão era fulcral para que esta funcionasse. Se as baterias de artilharia alemãs soubessem de antemão da Invasão, tudo estaria perdido. Para que os riscos de fuga de informação ou espionagem fossem reduzidos ao mínimo possível, só as altas cúpulas sabiam da altura exacta das movimentações.
Nos briefings, as companhias eram informadas que o ataque iria acontecer no Dia D, na Hora H (daí a razão de ainda hoje utilizarmos este termo para designar a hora certa para fazer algo).
Uns dias antes do desembarque, todas as unidade de ataque foram colocadas num campo especial, fortemente vigiado, onde ninguém poderia entrar ou sair até serem colocados nos aviões. Só no dia 5 de Junho é que souberam que iriam invadir a Europa porque foram informados, na altura dos preparativos, que essa invasão fora adiada para o dia seguinte.
Por isso, a História reconhece o Dia D como o dia do Desembarque. Mas não é por isso que se chama dia D. E é este facto que deveria ter sido pesquisado pela jornalista. Para não induzir o leitor menos atento em erro. Para poder fazer bom jornalismo, em vez de se limitar a relatar artigos dos séculos anteriores e se limitar a chavões.

