O que verdadeiramente me irrita

Num país onde ninguém se governa nem quer ser governado…

Sobre Santa Comba Dão…

… apraz-me dizer o seguinte:

Não vejo como polémica ou mesmo um insulto a inauguração de um largo com o nome de Salazar no 25 de Abril. Passa-me ao lado. É um fait-divers ao qual se está a dar a indevida importância.
No entanto, não posso deixar de comentar algumas das barbaridades que por aí se dizem sobre o assunto.
Pergunto: o que é que Salazar tem a ver com o 25 de Abril? Para além de terem trocado o nome da ponte na “Capital da Nação”, não vislumbro mais nenhuma relação. Salazar já era comida de minhoca em 1974. Marcelo Caetano caminhava mais depressa para a Democracia do que para a repressão. Talvez o 25 de Abril tenha sido a antecipação pela força do que poderia ter acontecido naturalmente. Nunca o saberemos e o resto é, como podem ver, especulação. Dizer que o País está melhor do que em 73 por causa do 25 de Abril é afirmar o óbvio. Se não houvesse 25 de Abril o país estaria pior do que em 73? Não acredito. Mas nunca o saberemos e o resto é, lá está, especulação.
E poderíamos especular até à exaustão sobre o assunto: Será que se não houvesse Golpe Militar em 26 teríamos ditadura? Teríamos Salazares, Otelos, MFA’s, Marcelos e muitos outros? Se não houvesse 25 de Abril, teríamos ditadura ainda ou liberdade? Estaríamos melhor ou pior? Repito-o com convicção: Não sabemos. Nunca saberemos.

Temos pois que nos congratular que, em Liberdade, num Estado de Direito, ao vogar da Democracia, somos democráticos o suficiente para aceitar que, no dia em que se comemora a Liberdade, Santa Comba Dão a tenha para inaugurar uma obra municipal. Ao mostrarmos  intolerância não estamos a ser melhores do que os que, todos os dias, desdenham a liberdade que muitos lutaram para conquistar, aspirando a um Estado estrangulador dos nossos direitos.

E se mesmo assim, não concordarem, fiquem com este pensamento: Oh, magnífico paradoxo. Homenagear um ditador em Dia de Liberdade? Salazar deve estar às voltas no túmulo.

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3 comentários»

  Sérgio Pontes wrote @

Concordo com o teu ponto de vista!

Abraço

  João Moreira wrote @

Bravo!… Este exercício de dialéctica está muito bom. Como diria o Neca Talocha: Se a minha avó tivesse colh… não era minha avó mas sim meu avô.
Em relação ao 25 de Abril, a questão não é saber-se que tipo de sociedade teríamos, mas sim o que o 25 de Abril nos trouxe. De resto, é tudo manifestações de retórica barata.
Para quem não sabe, antes de 25 de Abril:
– As enfermeiras não se casavam, ou só o faziam com licença;
_ As hospedeiras aéreas, idem;
– As mulheres não exerciam determinadas profissões. Era-lhes vedado, por exemplo, o exercício do Direito;

Depois, há as questões que qualquer mortal deve saber: Guerra Colonial; Censura; PIDE e respectiva bufaria; Prisioneiros políticos com respectiva tortura física e psicológica; Legião; Mocidade Portuguesa, etc…etc…etc.

Ah… uma coisa sei. Se não houvesse o 25 de Abril, tinha de cumprir mais 3 meses de tropa. Só nisso já foi bom (eheheheh).

  Deus wrote @

A questão está em saber se um sicário tem direito a gozar dos privilégios que, pela tortura e violência, negou a outros. Quanto à “democracia marcelista” deixa que te diga um par de coisas. Espanha tem uma democracia concedida, não conseguida. Por isso tem falangistas arvorados em democratas a cagar postas de pescada e nenhuma força de carácter realmente progressista. O Carrillo tanto reviu que nem sabe se não deve votar PP.


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