O que verdadeiramente me irrita

Num país onde ninguém se governa nem quer ser governado…

A distopia liberal…

Por Pedro Sales, no Zero de Conduta

Quando acabei o 12.º ano, estive um ano sem estudar antes de me candidatar à faculdade. Durante 3 meses trabalhei para o Circulo de Leitores. Em pouco tempo, entrei na casa de centenas de pessoas do Entroncamento e Torres Novas. Quase todas tinham a História de Portugal, de José Mattoso, nas estantes ou prateleiras. Havia outra constante. Os dois primeiros volumes estavam abertos, os restante seis repousavam dentro do saco de plástico em que vinham embalados. Um sem número de pessoas chamava enciclopédia às obras completas de Júlio Diniz, Camilo ou Eça.
São famílias inteiras que nunca tiveram hábitos de estudo, de leitura, de trabalho intelectual individual. Os seus filhos irromperam pela escola pública há pouco mais de 30 anos. Para milhares de famílias, esta é a primeira geração que tem alguma escolarização. O facilitismo do sistema público de ensino, de que fala Helena Matos, fez com que, desde cedo, tivessem mais conhecimentos a matemática ou português do que os seus pais. Em casa não há ninguém para os ajudar nos trabalhos de casa. A escola secundária do Entroncamento, onde colocavam os filhos, ficou este ano em 138.º lugar no ranking dos exames nacionais do 12.º ano. É má? Pior do que o colégio São João de Brito ou do que um selecto internato de raparigas que fez 32 exames?
A massificação do ensino teve que lidar com um país que já existia antes da democracia. Nem tudo correu bem, é certo. Partindo do mesmo atraso que também tínhamos na Saúde – sector, onde hoje temos dos melhores indicadores mundiais – ainda continuamos atrás das médias de conhecimento europeias. Mas, simplificando um pouco, a educação não é só construir hospitais e formar profissionais competentes. Tem o lastro cultural que a suporta. E que os detractores da escola pública omitem totalmente, como se o sistema educativo, a iliteracia, o analfabetismo e as dificuldades económicas tivessem aparecido há seis anos com a publicação do primeiro ranking de exames do 12.º ano. É simplista e pouco sério extrapolar uma leitura depreciativa sobre a qualidade do ensino público a partir da leitura do “top ten” dos rankings. Como veremos, nas próximos entradas sobre o assunto.

Na sua coluna do DN, o João Miranda alega que “[os defensores da escola pública dizem que o meio socioeconómico influencia mais os resultados que a qualidade da escola. Reconhecem, em última análise, que, ao contrário do que diz a utopia, a escola pública está muito longe de anular os efeitos do meio socioeconómico”. Nem a pública, nem a privada, já agora. Há seis anos que são publicados os rankings dos exames do 12.º ano. O colégio São João de Brito aparece sempre nas cinco primeiras posições. Uma escola com o tipo de ensino que a Helena Matos diz que os ricos escolhem porque sabem que é melhor e mais exigente. Vejamos.
O colégio São João de Brito é da Companhia de Jesus, a qual tem mais duas escolas com ensino secundário. O Instituto Nun´Álvares, em Santo Tirso, e o Colégio da Imaculada Conceição, em Cernache – Coimbra. Como acontece com quase todas as escolas privadas no interior, têm um contrato de associação com o Estado. Ao contrário do São João de Brito, recebem alunos de todas as classes sociais. A Companhia de Jesus afirma que os métodos de ensino, contratação e formação de professores são idênticos. Quais são, então, os resultados? O Nun´Álvares ficou em 177.º, a Imaculada Conceição em 91.º. Há quatro anos, ficaram em 164.º e 249.º, respectivamente. O São João de Brito, com os mesmos métodos pedagógicos e de ensino, ficou este ano em 3.º no ranking e, há quatro anos, foi a”melhor” escola…
Questionado, na altura, pelo “Público” sobre essa brutal disparidade entre uma escola que recruta os seus alunos entre a elite da elite e dois colégios privados com todo o tipo de estudantes, o responsável pelo São João de Brito diz que “o Colégio de Coimbra fica num meio paupérrimo”. “é um meio rural, com fraco nível cultural. Teríamos outra posição no ranking se estivéssemos mais perto de Coimbra”. Pois é, teria a Companhia de Jesus e a escola secundária de Alpiarça ou a de Campo Maior. Mas não têm, o que não as impede de ver na comunicação social que as escolas privadas são melhores do que as públicas. Uma leitura redutora que, como se vê, tem os seus dias. Ou melhor, os seus sítios e classes sociais.

A conversa sobre as virtudes da escola privada acaba, quase sempre, na desigualdade de condições entre uma, que tem que cobrar propinas, e outra que fica à borla. É preciso acabar com isso, dizem, no país em que o Estado mais apoia o ensino privado. Mais de um terço dos alunos nos colégios privados são financiados por dinheiros públicos, aos quais o Estado entraga 3343 euros por cada aluno. Não chega. A solução, dizem os defensores das virtudes privadas, é o cheque-ensino. Cada família recebe o dinheiro do Estado e escolhe a escola onde quer colocar os seus “piquenos”. Uma solução que destrói a rede pública e que traz gastos acrescidos para o Estado, que a tem que manter, e, ao mesmo tempo, financiar as escolas privadas.
Por alguma razão, apesar de toda esta campanha e pressão para a privatização do sistema educativo, essa solução não existe em quase nenhum lado, à excepção da Suécia ou do estado do Milwaukee. Os resultados são os esperados. Os alunos não alteram os seus resultados escolares por estudarem em instituições privadas, segregação dos mais pobres dos pobres, votados a uma escola pública subfinanciada e de segunda, bem como o brutal aumento das despesas públicas (a fórmula de fianciamento deve mesmo ser alterada este ano para conter a despesa). A discussão não é de hoje, basta ver o que escrevia o New York Times em editorial há quase 10 anos.
“It is absurd to argue that public education can be improved by diverting huge amounts of tax revenue into parochial and private schools. A voucher plan, such as Milwaukee’s, does not reform anything. It is a funding mechanism that forces taxpayers to underwrite religious and private education. Improving education for all students, not just the few who manage to get vouchers, requires sustained community commitment and leadership. Vouchers are a convenient political diversion from that task.” It would be far better to increase public school funding to improve education for all the students”. Editorial do New York Times, 11 de Novembro de 1998.

Helena Matos, João Miranda ou Filomena Mónica passam a vida a falar dos perigos de uma educação estatizada. Não há liberdade de escolha, o ensino é pior. Uma balda onde ninguém é avaliado. Os indicadores internacionais não existem apenas para dizer que estamos atrás dos países nórdicos ou do leste europeu. Também nos servem para pormos os olhos nos outros e vermos que há países onde não há rankings, não há retenção de alunos com piores resultados, só é possível abrir uma escola privada com aprovação do Conselho de Ministros (e estão proibidas de cobrar propinas, recebem o dinheiro do Estado). Países onde existem menos de 40 escolas privadas, mas que são, ao mesmo tempo, classificados pelo insuspeito Fórum Económico Mundial como tendo o melhor ensino secundário do mundo. O país é a Finlândia e, segundo o estudo internacional de referencia, o PISA, os seus alunos costumam ter os melhores resultados mundiais a quase todas as disciplinas.
A distopia liberal é isto. Ideologia e preconceito contra o sistema público, baseada no aproveitamento demagógico do senso comum. Não tem nenhuma base, nacional ou internacional, que a suporte. É o preconceito de classe travestido de preocupação social. Tudo em nome da liberdade da iniciativa privada que, veja-se, só é verdadeiramente livre se for o Estado a financiá-la. E diz-se esta gente liberal.

2 comentários»

  Ricardo Almeida wrote @

Apreciei muito o seu texto. Realmente o senhor faz uma análise comparativa muito pertinente entre o CSJB e o INA e Cernache. Não me vou alongar em comentários, apenas queria frisar que não se deve estar constantemente a rotular os alunos do CSJB como a “elite da elite”. É um preconceito errado. Existe uma constante referência pejorativa aos alunos do CSJB. É inegável que somos todos privilegiados por ter a possibilidade frequentar um estabelecimento ímpar em Portugal. Para tal, muitas famílias fazem sacrifícios económicos abissais para possibilitar um início de vida diferente aos seus filhos. Grande parte dos alunos responsáveis por levar o CSJB aos lugares de topo do ensino em Portugal não pertencem a elite financeira. São filhos de pessoas que trabalham todos os dias, de manhã à noite, e que optaram por gastar o seu dinheiro na educação dos filhos. Na carteira ao lado dos filhos do dono do banco, do Primeiro-Ministro, do Deputado, do empresário estão os filhos do professor de liceu, do agricultor, do trabalhador assalariado, do individuo que apenas tem o 9º e que faz tudo para que o filho venha a ser Dr. Está sim é a realidade. Dentro daquelas paredes somos todos tratados por igual, sendo que a competitividade inerente ao próprio espírito interno do CSJB faz com que todos queiram ser melhores. Os menos ricos querem justificar o sacrifício dos pais e os mais ricos nem sempre estão lá apenas para brincar.
Sabem quantos alunos tem problemas para se manterem naquele colégio?
Sabem que, independentemente da condição financeira, qualquer aluno que chumbe é levado a conselho para avaliação? Sabem que qualquer aluno que chumbe dois vezes é “convidado” de forma coerciva a sair? Sabem que quem não cumpre os ideais de entre ajuda, camaradagem, e de dedicação não se mantém muito tempo como aluno do CSJB?

Já alguém fez as contas para saber quanto custa ser aluno do CSJB? E já agora comparem com os custos de vida de qualquer membro da classe média portuguesa. O CSJB infelizmente não está acessível para todos mas existem milhares de famílias que têm recursos mais do que suficientes para pagar as propinas e só não o fazem por opção. Experimentem cortar no cigarro, nas roupas em excesso, no consumismo incontrolável, na troca de carro de 5 em 5 anos, nas férias no Brasil e depois comparem. Para a classe média Alfacinha é uma questão de prioridades.
Quem opta por escolher o ensino privado não é apenas a elite.

Como nota final, tenho muito orgulho em dizer que fui aluno do CSJB durante 12 anos. No ano em que acabei, foram divulgados pela primeira vez os rankings oficiais. É para mim um motivo de orgulho dizer que pertencia a melhor turma do país de filosofia e que naquele ano o CSJB ficou em 4ºlugar. Não é por isso que sou elite. Não vivo de rendimentos. Entrei na Universidade pública a vontade, fiz uma licenciatura e uma especialização e tudo com sucesso. Trabalho todos os dias das 9h às 20h, estou a recibos verdes e ganho o ordenado mínimo nacional. Não falhei porque sei que tenho um grande futuro a minha frente. O CSJB é em parte responsável por isso. Não sou elite. Ninguém consegue distinguir-me de outro qualquer jovem trabalhador.

O CSJB apenas transmite uma perspectiva diferente, não é melhor ou pior. Possivelmente quase todos os alunos e antigos alunos do CSJB pertencem a parte da população intelectualmente mais esclarecida. Mas isso também os melhores alunos de quase todas as escolas do país, muitos deles com enormes capacidades intelectuais, e com melhores resultados escolares. A única diferença é que ali dentro está 1 aluno de preguiçoso em 100 e nas escolas públicas estão 100 preguiçosos e 1 brilhante.
Ninguém é mais inteligente que ninguém.
É uma teoria económica simples. Se eu sei que estou a gastar muito dinheiro na educação mais vale aproveitar e trabalhar. Se é a “borla” posso descurar. É uma questão de incentivos e de educação em casa e não de elitismo económico.

  karlmacx wrote @

Caro Ricardo, fiquei agradado com o seu comentário, muito devido ao facto de estar “por dentro” do assunto em questão.
Lamentavelmente, não posso nem quero – por respeito e por princípio – assumir a responsabilidade do texto.
O texto acima não reflecte, de forma alguma, a minha experiência pessoal, pese embora o tenha citado porque, na sua globalidade, concordo com os seus conteúdos.
Como referi logo no início do texto, este foi escrito por Pedro Sales, um dos fundadores do blog Zero de Conduta e, como tal, poderá ser visto – no original – seguindo o link que poderá encontrar nas “terapias” deste blog.
Tal não impede, contudo, que o preclaro Ricardo volte a visitar este meu local de expressão e que faça ler a sua opinião onde e quando o aprouver, sempre dentro das regras da civilidade e da boa educação, como entendo ser do apanágio do meu estimado visitante.


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